segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Minha Vergonha

As vezes sinto vergonha de dizer que sou africano,
Que sou moçambicano...
Que sou humano de qualquer floresta...
Quando vejo que, os que me governam...
Estão mais atarefados em fabricar discursos e leis para nós o povo,
Entretendos-nos, enquanto isso, eles enchem seus bolsos e panças
Por aquilo que faria-nos sorrir...
E os que deviam pegar na espingarda da justiça lutar
Estão possuídos por veneno de mordomias...
Gratificados pela ginástica do punho que apunhala a nossa dignidade...

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Globalização, íman sem fronteiras

Cabe aos tradicionalistas travarem batalhas duras
Cabe aos maestros conservadores inventarem todos os hinos
Mas a globalização, cada dia avança, cada dia invade,
Cada dia aterra ou atraca…
Cada dia implanta-se, dita regras no consciente ou no inconsciente…

Assim cabe a própria estrutura social socializar-se,
Readaptar-se ou reestruturar-se
Ou simplesmente enforcar-se…
Neste íman sem fronteiras, sem segredos…

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Terra de Boa Gente

Nas espessas sombras da frescura da baía
Sussurrados por marés vazantes ou enchentes
Evacuando as maravilhosas conchas nuas pela marginal
No belo nascer e pôr-do-sol sorridente
Que nasce ou morre espetado no azul das águas serenas
Onde riquezas de espécies marinhas multiplicavam-se
Na inocência dos anzóis e redes que viriam em massa…
No longínquo ano de 1498,

Conheceram-te...

Nas tuas sombras de solidão natural
Nas tuas escamas de virgindade…
No teu cúmplice humilde gesto humanitário
Entre correntes quentes e frias correndo nos teus belos seios…
Navegados pelos homens do além
Chegados de grandes e longas viagens
Despiram seu calor da Europa...
Impregnaram-se na frescura que ofereces…,

Entregaste-te, sem lobolo, terra sem cidade…

No orgulho das algemas de suas terras virgens
Como o próprio povo humilde e inocente
Que de suor soante, esverdeou-os:
De trigo, de arroz, de sisal…
No recheio de xigubo… de opressão
Temperado de precursão de temperar azedamente a pele…,

Prostituíram-te, minha terra e meu povo…

Sentiram o doce carinho acariciante
Que vem deste povo humilde do Índico
Indicado a viver nesta baía adorada
Pelas canoas e barcos a vela
Roçando carinhosamente as ondas serenas
Pelas marés enchentes navegantes
Na mistura de sons de melodias de línguas locais
Localizadas no interior da identidade deste povo,

Apelidaram-te…
Terra boa
Gente boa
Terra de boa gente!

De suor vergado dos poros excitados
Provocado pela tesão dos músculos masturbados
Na evaporável viagra do chicote do além
Electrizando corpos de homens e de mulheres
Acorrentados dos pés até ao pescoço
Na marcha bárbara da construção de ti, Inhambane
Outros homens misturados no betão dos edifícios e das estradas
Sangue amassando cimento ou pintando rupestre as obras…
Outros ainda, acorrentados, chicoteados…
Construíam a linha férrea ferrada…
Ou ainda, eram vendidos para outras terras
Para construir as gigantescas economias…
Que hoje, este seu povo “liberto…”
Vivendo nesta ou noutras cidades deste belo Índico
Vagueia na dependência económica…
Nesta máquina de contínua opressão…

Gente boa
Boa terra
Terra de boa gente…,
Inhambane

Pequena cidade, maravilhosa arquitectura
Linda cidade, conservadora de explicação histórica
Ambiente sereno, povo acolhedor
Cúmplice solidão, armadilha de atracção…
De companhias inesgotáveis pelo Inverno e Verão…

Feliz Aniversário (12/8)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

As malas…

Do académico: o método;
Do político: a ideologia;
Do padre: a bíblia, a doutrina.

E qual é a mais pesada?

O método, que carrega e vê todos os ângulos:
Do político, do padre, da sociedade
Onde o único produto em disputa é o povo.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Mawaku os que Não se Endividam!

Sempre que o sol raia
Raia-me a matemática no cérebro
Martelam-me as equações da vida
Com resultados positivos ou negativos…

Sempre que o sol esmurra-se no travesseiro do escuro
Ressuscito-o nas mantas sem conforto
Na nudez de janelas mortas pelo silêncio
Jogando contas no quadro da vigília
Magicadas de soluções sem resultado
No tagarelar silencioso do cérebro
Que mergulho no longo e prolongado silêncio nocturno
À busca de solução da equação da vida

Vasculho o espírito protector
Só me cobra mhamba…
Rogo Deus na cortina de milagres
Só me cobra dízimos…
Chamo a responsabilidade do poder…
Só me entulha de inúmeros e elevadíssimos impostos…
No rio de discursos de possibilidades impossibilitadas

Vou sobrevivendo endividado
No banco do coração
No banco do estômago
No banco do cérebro
No banco de patriotismo -
Onde os juros custam-me sangue e sofrimento
Sem que ninguém me acuda!

Mawaku os que vivem sem dívidas
Que apenas precisam e fazem
Matemáticas para subtrair os meus juros
Nesta vida que em todos os bancos estou endividado
Mawaku, mawaku, mawaku eles…

Estou sufocado desta vida
Mas a saída é continuar endividar-me
Juros chicoteando-me o cérebro
Machucando-me o coração
Roçando-me o estômago
Varrendo-me o orgulho de patriota -
Nas matemáticas feitas pelos outros
Das contribuições sem destinos
De impostos cada vez diversos e altíssimos
Coercivamente colectados pela lei inquestionável…
Mawaku, mawaku, mawaku…

Mesmo que deixe de amar
O banco da solidão me cobrará

Mesmo que deixe de comer
O banco da fome me cobrará

Mesmo que deixe de trabalhar
O banco de desemprego me chicoteará

Mesmo que deixe de estudar
O banco do analfabetismo me sufocará

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Meu SER Penhorado

Nasci pintado do meu ser de ser Eu
Quando me descobriram que não era Eu
Provindo de um ventre de outras cores
Mesmo na mesma floresta humana

Vasculhei os passos do meu ser
Nos arbustos de identidade humana
Onde sopram ventos do mesmo ser
Brilham cores de todas belezas
Desfilam as gramáticas de toda humanidade
Onde me encontro perdido
Talvez sem identidade, não importa
Talvez sem cor, não interessa
Ridicularizado e humilhado
Escravizado e explorado…
Coisas dos gulosos e predadores

Sei apenas que sou ser humano
Nascido de um ventre
Não interessa se é do Norte
Se é do Sul, Este ou Oeste
Se é da África ou da Ásia
Se é da América ou da Europa
Ou doutras e outras partes

Encontro-me na mesma espécie
Onde identificamo-nos pelo mesmo código
O código de fala ou de gestos
Mesmo que as gramáticas sejam diferentes
As necessidades são as mesmas
Nesta teia de aranha que interliga-nos
Na magna floresta humana
Onde construímos os nossos relacionamentos

Serei diferente dos outros?
Não!
A espécie humana é a mesma
Que se encontra no Norte ou no Sul
No Oeste ou no Este
Na África ou na Ásia
Na América ou na Europa
Ou em outras e outras partes

Embora com gramáticas diferentes
Somos todos humanos
Dependemos do mesmo oxigénio
Embora tenhamos gulosos
E predadores da mesma espécie
Somos todos humanos
Seres humanos
Com faculdades de pensar e agir

Não importa se somos pretos ou amarelos
Azuis ou vermelhos
Brancos ou rosas
Não importam as nossas crenças
Todos construímos e reconstruímos a ciência

Povoamos e repovoamos a nossa espécie…
Com o mesmo poder de espermatozóides
Ninguém ejacula de ouro ou de prata
De diamante ou de bronze
Todo ventre fecunda o que gera a minha identidade

Que me resta?
Salvar-me dos gulosos e de predadores
No combate às injustiças sociais
Às imposições de exploração e escravidão
Do neocolonialismo…
Construir a minha própria economia
No dia em que saberei melhor gerir a coisa pública

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Poetando-me poeta

Redescubro-me na sombra do silêncio
Na maca da solidão marchante
Coroada de coágulos de dor dolorida
Nesta melancolia de vomitar o sofrimento
Que pinta artisticamente este caqui
No contraste da balalaica que me aquece avidamente

Dor é sentir a dor
Sorriso é deixar a dor falar
Felicidade é compreender a fala da dor
Entre amar e ser amado

Ou entre governar e ser governado
Nesta vasta floresta da humanidade
Em que o predador do Homem
É o outro Homem jazido na sombra da sociedade
Onde poeto-me poeta