quarta-feira, 20 de abril de 2011

Subúrbio (3)

Avessos corpos nossos ensanguentados
Sem renúncia à morremorrer coercivo da planície...
Com feridas sem morfina para adormentar a dor
Que nem médico existe para examinar ou reanimar
Somente a distância e ausência que curam
Nas profecias políticas e religiosas –Seringas que sugam
Sangue de corpos dominados, em nome de poderosos
Swikwembos doutrinários e ideológicos, reles
À realeza das necessidades de nós, cadáveres ambulantes.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Pegadas de Minhas Heroinas

Badaladas de enxada na terra
Plantio de suor e de sangue
Vezes brota nada além da terra seca
Ó Mulher Moçambicana

Batucadas dos pés na terra
Percusão do xigubo da distância
Ao dedilhar do peso da lata
Ou do molho de lenha na cabeça
Ó Mulher Moçambicana

Balão do ventre soprado
Peso do ar até aos nove meses
Rebenta e pare a carga
Que passa para as costas
Entre a chupa do peito e o calor da mãe
Ó Mulher Moçambicana

Xidjumba de qualquer coisa na cabeça
Longas horas oradas na esteira do chão
Voz embutida na isca de pescar clientes
Em qualquer dumba-nengue ou tchunga-moyo
Crianças que vezes esperam sem pai em casa
Ou sem âmparo de qualquer alimento...
Ó Mulher Moçambicana

Com a coluna destilada na enxada do alambique
No canavial onde aguardente de sangue e suor
Enche as represas da rega
Que fazem crescer a cana-doce
E envenenam a cana-amarga de crianças em casa
Casadas com o desespero de uma mãe
Que não traz o suficiente...
[Ou
Com a coluna que embrulha o sono na rede de pesca
Que nem peixe nem camarão nem lula ou caranguejo
Nada entra na rede se não a distância, o tempo, o sono e a força
Pescados de volta à casa casada com miséria
Ó Mulher Moçambicana


Empilhada no xapa 100
Ou despedaçando qualquer distância
Com saco de livros no ombro
Livrando-se do dia ou da noite
Ao encontro do marido que nunca lhe trai:
A escola, a faculdade, o instituto...enfim a instrução
Ó Mulher Moçambicana


[ou

com o volante do carro nas mãos
Teclado do computador engatado nos dedos
Empenhada na gestão de seu empreendimento
Ou do patrão...
Ó Mulher Moçambicana


Mulher camponesa
Mulher empregada doméstica
Mulher estivadora
Mulher mãe, minha mãe
Mulher esposa
Mulher viúva
Mulher namorada
Mulher empreendedora
Mulher académica
Mulher política
Mulher estudante
Mulher funcionária
Mulher dirigente
Mulher guerreira,
Toda mulher
Ó Mulher Moçambicana
Ó Mulher Moçambicana
Ó Mulher Moçambicana

segunda-feira, 21 de março de 2011

Vinte e Um de Março, Arquitectura das Palavras

A poesia é este movimento antes em silêncio sufocante
Algemado em vozes no hospício de solidão, de dor, de alegria...
Que desamarram palavras – reclusos que invadem papéis
Com espingarda de esferrográfica nos dedos
Adedados na arte de assaltar o vazio do papel

Poetas/Poetisas não temem qualquer espingarda...
Porque a poesia é este diálogo e percepção do vapor das espingardas
Dos estrondos de guerras bélicas
Do movimento penumbrado dos espectros
Da fala dos swikwembos no pacto com os vivos
Do grito vagabundo do mar no vaivém das ondas
Do gemido prazeroso de corpos algemados na planície do amor
Do brilho tédio do vazio de estômagos do povo
Da festa do sol ou do luar
Onde a civilização humana é o epicentro de todas as mudanças
No percurso entre a luz e a escuridão...

A poesia é a fervura do pensamento esquentado no fogo do silêncio
Atiçado pelos estrondos passos de cada civilização humana
Na larreira cujas chamas são as palavras que trepam as escadas de qualquer papel branco
Neste movimento da vida que todos os dias cantamos,
Contamos, degustamos impressões, emoções, paixões, apetites, lágrimas, luto...
Que tornam a vida vivida em cada verso poetizado,
Devendo-se aos poetas – esses operários constructores...,
A honra de toda a arquitectura elaborada
De símples ou complexo, sintetizar cada suspiro vivido ou visto...

Khanimambo a todos mestres da poesia
Que pela arte da alma vivem, morrem
No arteliêr arquitectónico das palavras
Lavrando a terra da vida, replecta de inúmeros mistérios
Que são a inspiração de qualquer poeta/poetisa
Que entre a noite e o sono, o dia e o sol
Divide a cada momento com a enxada da palavra na mão

terça-feira, 15 de março de 2011

Democracia!!!

Se tu fosses produto de venda...todos comprariam -te
Até o pobre povo ao preço de justiça
Nas lojas de liberdade de expressão
Expressa na dignidade humana de um povo...
Povoado de paz mental, estocamacal, habitacional...

Democracia, tú estás democratiranizada...
Nas vozes de locução dos poderfanáticos que te esculpem
E na pele deste povo, repeles-te para democratiracia...
Que perfura os poros, os tímpanos e até os intestinos
À busca de mineraticranias para democrapoliriquezas
Em picaretas de leistiranos incontestáveis...

06.07.09

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Subúrbio (2)

Da rampa da montanha da pobreza alcanço
O lençol freático que encolhe poços sem água
Como as tripas de cadávres ambulantes do subúrbio
Espancados pelo vento da espada da fome
Ou do grito de crianças que baloiçam no peso do vazio...
Lá oiço o eco do grito do martelo
Na empresa empregante de desemprego
Que nem a lei que forma os desempregados
Acode a confusão instalada entre o martelo e a empresa...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Subúrbio (1)

Subo o subúrbio
Desço na rampa da montanha da pobreza
Assobiando a terra com calos dos pés
Calçados de miséria da nudez que beijam o chão
Abraçados às estradas do vazio do alcatrao

Caminho no perfume da imundicie
Ao encontro de esqueléticas casas
Que ainda albergam cadáveres ambulantes
Que fogem coveiros para lhes enterrar
Soterrados pela pobreza que reza
Os tumultos das campas acampadas no meu subúrbio
Que se tornam cartão de visita da ajuda externa
Eternamente sumindo do museu da minha arte...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Na baía (2)

Aqui as mulheres cantam o orgulho de serem moçambicanas ou africanas
No espectáculo da noite espessa em que o sono foge,
Corre para a baía vislumbrar a magia da rede que pesca o sorriso do pescador...
Ou para a festa do sol abrasador que tenta impedir a percussão do xigubo da coluna
No palco da machamba que nem mandioca para tapiocar traz...
Ou para acudir o giz que seca nas mãos do professor antes de, pedagogicamente brilhar nas mentes dos alunos...

Minha casa não é aqui, é no sussurro das ondas da baía,
Sentado no banco da areia despida pelo vaivém das águas,
Possuído pela melodia do Índico onde pelas noites me lanço entre os suspiros dos sonhos das mulheres bitongas, matswas, machopes e doutras mulheres de moçambique ou de Africa…
Que deambulam à risca de violar as algemas da pobreza que cada dia arrasta mais reclusos...
À prisão machista guarnecida pela musculatura da masculinidade social,
Que nada conseguem se não despir a naturalidade da sua beleza esculpida pelo ventre do Índico...

Na baía os sonhos não morrem no sono como o peixe morre na rede,
Os sonhos atravessam a alvorada de canoa até ao raiar do sol,
Mesmo que signifique gelar sangue pelas aguas,
Rebentar as mãos nas rochas ou na terra seca,
Emprestar a consciência na doutrina de dizimos,
Ou pendurar a verdade em nome da verdade politica...
À esta margem da vida em que as acções do sonho se cruzam no cumplice ganancioso desta devastadora civilizacão...